sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

15anos15anos15anos15anos15anos

Agora já nos finais de Outubro, quando a escola e os treinos já estabilizaram e deixaram de ser novidade, sobra mais tempo para as conversas, silêncios e desabafos. A carrinha cheia de miúdas com a adolescência a explodir por todos os lados, cheias de dúvidas e preocupações sobre assuntos deveras preocupantes: rapazes, amigas, beleza, rapazes, comida, rapazes, amigas e as quase terrriveis mães que praticamente acham que mandam nelas, naquela roupa preferida que acusam de ser de menos, nas horas de chegar que acham sempre a mais e ainda na escola que têm sempre a certeza que não tem a atenção merecida.

Falam tão alto que até dói lá no fundo dos ouvidos. Confesso que já teve dias que os atulhei de algodão, correndo o risco de nem ouvir alguma sirene que me avisasse que estava na hora de mudar de rumo, não fora encontrar-me com alguém, ainda que amigo, que não apreciasse assim onze ou doze miúdas mais eu dentro duma carrinha supostamente para nove pessoas. Eles às vezes são assim um bocadinho pouco compreensivos, exageram, nem percebem que elas são fininhas e que aconchegadas umas às outras até vão mais seguras.

E falam todas ou quase ao mesmo tempo. E cantam. Daquelas músicas fantásticas que falam de amor e de traição e que fazem choram as mais rústicas pedras de calçada. E contam, contam, contam. Da escola, das amigas que afinal não são bem amigas mas que amanhã ou daqui a bocado já são de novo, daquela imensa paixão que tira o sono à noite e o traz de volta logo na primeira aula da manhã, exactamente quando a setôra estava a explicar a matéria que saiu no teste de hoje e vá lá ver-se se não foi até de propósito, porque há setôras que até são más. As tais que não são bem amigas é que são um bocado anhadas e ainda têm a lata de dizer que foi bué fácil e isto tudo só porque o miúdo mais giro lhe calhou par na equipa de badmington do ano passado e foram juntos às finais ao Norte e ficaram lá sózinhos com a DT um fim-de-semana inteiro.

Elas não sabem é que ele afinal não foi o garanhão que ela descreveu pois muito pelo contrário. Mas se lhes contasse que o dito chuchava no dedo, chorou com saudades de casa e, pior de tudo, dormiu sempre de meias e pijama de flanela a sua reputação estava concerteza completamente arruinada.

E há riscos que uma miúda não pode correr ...

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

contra a corrente

No princípio é sempre era uma vez de qualquer coisa. Já não lembro qual. A nossa estória de cumplicidade foi uma vez dum dia qualquer, quando os tempos ainda não eram comuns nem o querer caminhava em sentido único. Com o correr do tempo passámos a adivinhar as palavras por dizer e os anseios por alcançar, os apertos no peito e as graças que nos fazem gargalhar até doer quase tudo. A bola que girava apenas no campo passou a rolar ao ritmo dos meus fins de tarde, em cada giro que a carrinha faz pelos bairros; as más novas que lia apenas nos jornais ganharam outras perspectivas e trouxeram revolta pela inércia dum sistema que apenas vislumbra o só amanhã, não apostando em metas parcelares com lucros não imediatos. A incapacidade para continuar projectos já iniciados com fim à vista, a dor pela falta de participação activa de quem de direito, que afinal somos todos nós, a ignorância face ao óbvio que é o futuro social comum das gerações vindouras rouba-nos, em momentos de fraqueza, aquela força de lutar pelos amanhãs sonhados em que acreditamos, mesmo quando razão e as leis dos homens nos querem destinar o contrário.


Mana, nos sta djunto. Pa venci.


mmm

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

sem palavras

querida isabel,

passou quase um ano desde que te perdi o rasto. mergulhei por lugares que desconhecia existirem, rodei quilómetros procurando uma pista, escrevi centenas de mensagens que não chegaram ao destino e fiz-te morta quando tive certezas que estavas viva.

continuo por cá. nas mesmas lutas, nos mesmos lugares, acreditando quantas vezes no impossível e comprando guerras que podia fingir são de paz. sonhando demais provavelmente. ou fugindo do que me assusta e tormenta.

quantas e tantas vezes pensando por onde andas, que pensas, se sofres, se ris, se me riscaste da tua vida, se voltas, se ... duvidando da força do querer e abandonando esperanças vãs dum reencontro intemporal.

bastou ouvir-te a voz para que um misto de serenidade, pranto e vitória se instalasse. Tem vezes a razão é fraca e só o coração tem palavra.

ainda bem que voltastes.

domingo, 23 de Agosto de 2009

De volta à labuta

Meus queridos CDA's,

Claro que estou cheia de saudades vossas e dos vossos fantásticos abraços e mimos mas bom, bom, era poder juntar esta maravilhosa suestada numa trouxa de pano di terra, levá-la comigo na furgoneta e, à chegada, espraiar a Meia por inteiro aí mesmo no terraço do nosso atelier ou no parque, entretanto já quase despido do nosso festival de emoções.

Quase tenho peso na consciência de ter tido o atrevimento de vir de férias e deixá-los aí todos na labuta. Mas aqui a mamacita não esteve só a banhos e a curtir o terraço e os petiscos da avó Maria que, confesso aqui entre nós não está fácil de aturar, é a verdadeira mãe de filha única, com todos os caprichos e casmurrices a que tem direito mas também com as lamechices e todas as coisas boas que só as avós parecem saber de cor.

Volto de energia em alta depois de muitas horas de sono, de livros e de Meia-Praia. Devia ter acabado relatórios, disfrutado algum tempo com os amigos de cá, tratado daquelas burocracias infernais de finanças e afins, mandado caiar os muros e limpar as valas e até jantado num lugar simpático nem que fosse uma só vez, mas, desta vez, só consegui mesmo ser mãe relativamente atenta, filha pouco dedicada e salvadora do que ainda de mim restava.

Daqui a uns minutos abalo. Deixo os gaiatos e o pai deles em mais um fértil período de avósanso e vou por aí fora, de janelas abertas, música alto, direitinha ao CCB para o espectáculo dos Terrakota. É lá que nos encontramos, não é?

Beijos, beijos, beijos

mmmmm

domingo, 2 de Agosto de 2009

Verão no Parque

O VERÃO NO PARQUE tem vindo acontecendo no sonho, no trabalho e no coração de todos os que vestimos a camisola desta equipa. A última semana foi o descobrir como tudo o que até então eram só palavras no papel era na verdade, ao vivo e a cores.

O Parque da Quinta do Salles tem sido palco de múltiplas vivências formativas e lúdicas, de partilha de saberes e de encontro de quem bem se quer. Vibrámos todos com os Terrakota, a Marta Plantier, a nossa Valéria e a Lura. Dançámos e cantámos juntos até o que não sabiamos de cor, inventámos soluções para os imprevistos entre aulas de capoeira e de kizomba, de pincel ou de chave de fendas nas mãos, acreditando sempre que sempre é possível.

Subi agora ao atelier para apanhar um panelão de sopa que as mães fizeram durante a tarde. Lá em baixo, na relva, as tendas estão montadas em meio círculo, de frente para o palco. As guitarras soam, os jovens rappers cantam ao desafio e os mais piquinotes vão-se encostando, ao sabor das estórias que se vão soltando.

Não sei se foi isto que sonhei mas não tenho dúvidas do quanto sou feliz nesta comunidade que, há muito, tão bem me acolheu.

quinta-feira, 23 de Julho de 2009

Maria

Tem dias que ou desço à terra ou é mesmo a terra que se eleva e me toca os pés, quase me puxando e obrigando a criar calçada. como a luz que se acende no tablier mostrando o depósito em estado de quase parar. o despertador que lembra uma alvorada tardia que apetecia não ter chegado. a carta das finanças que fala dum imposto por entregar. a roupa que cresce em pilha pedindo ser engomada. a balança que não se inibe de mostrar em números robustos o que não devia acontecer. a tosse seca matinal em castigo aos cigarros da véspera. as horas que se recusam a demorar nem que seja tão só mais uns minutinhos que sessenta.

A chegada da Maria foi a calçada alinhada, o depósito quase cheio, as horas que até parece têm mais tempo. Não sei se é uma espécie de grilo falante se uma voz em gestos precisos de segurança, mas sei que lá de dentro vem coisa boa.

Ainda bem que vieste.


,,,

quarta-feira, 15 de Julho de 2009

Nô djunta mon

Foram chegando pouco a pouco e num repente já são mais de trinta. Os jovens do bairro, mais uma vez responderam à chamada e, quando ainda faltam doze dias para darmos início ao VERÃO NO PALCO, os nossos voluntários trocam experiências em dinâmicas de grupo orientadas pelo Hélder e pela Maria.

Correm, riem, jogam, juntam-se e desjuntam-se em grupos, consoante as indicações dos moderadores. Silenciam nas explicações, colocam dúvidas e correm de novo pelo terraço, já sombreado pelo tarde da hora. Quando forem grandes querem ser jogadores de andebol e de futebol, bombeiros, polícias, professores e artistas. Os que já são grandes vão galgando caminhos e cruzando metas. Mas todos eles não nos deixam dúvidas quanto à sua generosidade.

Juntos desenharemos os amanhãs sonhados.
kkk

terça-feira, 14 de Julho de 2009

de caminho


As nuvens mal correm no céu da Outurela. O bairro prepara-se para adormecer. Só a brisa sopra de mansinho, como que para me trazer as últimas risadas e cantorias que ainda soam no parque. À noitinha, quando o trabalho já esmoreceu, o silêncio quase se ouve e a tijoleira ainda amorna os pés descalços, parece todos os amanhãs são possiveis, belos e de paz.


Acendo um último cigarro, aterro num dos pufs do terraço e deixo-me ir, sonhando .

quarta-feira, 24 de Junho de 2009

do fundo do coração

Escrever cartas a quem se ama é sempre um bom incentivo para aprender a juntar letras e formar palavras. Tem sido assim, todas as manhãs cedo, enchendo folhas de papel pautado enquanto o parque acorda e os telefones ainda não tocam. Cartas de saudade, de desabafo, de reeinvindicação, de amor sonhado. Umas vezes de verdade e outras assim a modos que de faz de conta mas, sabemos ambas, é nessas que o coração solta a mordaça, fala solto e nos deixa a cabeça à roda, cheia de dúvidas e de vontade de traçar novos caminhos.

Se calhar devia ensiná-las a escrever só cartas de mentira, daquelas que começam por "Queridas primas, Desejo que esta carta as vá encontrar de boa saúde que eu estou bem graças a Deus", que terminam com "muitos beijos e abraços desta prima que muito vos estima" e que pelo meio falam do sucesso do emprego dos filhos, de como os netos vão bem na escola, da televisão nova que acabaram de comprar e do bom que é viver na Europa.

Mas essas são as cartas que depois da lição são deitadas no marco do correio. As outras, as que nunca são enviadas, falam das fraquezas, da pobreza, dos maridos ausentes, da falta de amor, da luta de cada dia, das patroas, do frio do Inverno, da demora dos documentos, da sede de afago,daquele aperto no peito que tira vontade de tudo e do grito rouco que vem lá do fundo e dá aquela força de continuar a acreditar em amanhãs melhores.

Esta noite, quando todos dormirem, vou escrever-me uma carta.

ssss


quinta-feira, 18 de Junho de 2009

primeira vez

Por mais vezes que se fale da primeira vez, jamais alguma primeira vez perde o sabor da novidade e o arrepiozinho do desconhecido.

É o primeiro dia de escola com tantos novos amigos, a professora, boa ou má que nunca vamos esquecer e aqueles recantos de recreio que se vão tornar a nossa casa;

O primeiro amor, que brilha mais que a estrela mais brilhante que agora vislumbro pela janela escancarada ;

A perda do carrinho mais veloz que se acidentou escadas abaixo, a mancha de tinta verde no vestido preferido, o primeiro dente de leite a abanar, o nosso nome escrito em letra de mão e sem ajuda no caderno diário, as manhãs as tardes e as noites que passam a ser tantas horas e tantos minutos, lidos a custo num mostrador de relógio, a bicicleta que finalmente deixou de tombar e aquele miúdo parvo que não nos sai da ideia.

A descoberta do próprio corpo, o prazer e a dor da paixão, a primeira saída à noite com os amigos, de cigarro e cerveja em punho, ainda com horas de voltar mas com chave de casa no bolso, o calor do desejo e a pressa de o calar.

Ir de férias sem escolta, tirar a carta, subir saias e descer decotes à medida da moda e dos desejos de cada dia, ganhar a vida, descer a rua de saltos altos, despedir o acne, votar, atravessar o Tejo de cacilheiro, negociar o aumento de salário, jantar à luz de velas, dar sangue, dormir ao luar, separar o lixo, fazer greve, usar óculos, adormecer no comboio, ir à Meca sonhada ou simplesmente pintar as unhas das mãos.

terça-feira, 16 de Junho de 2009

ser mãe

há exactamente vinte e um anos, por esta hora, desciamos a avenida da liberdade com destino ao cais do sodré. no vagar do caminho subimos no elevador de santa justa e deixamo-nos ir atrás dos sonhos. no passadiço para o carmo demoramo-nos em longos beijos e abraços apertados. lá em baixo, na rua garrett, encostado a umas floreiras que lá havia, um jovem flautista tocava uma melodia que ainda hoje guardo, acho que no coração. no céu brilhava uma lua quase cheia e a brisa soprava de mansinho, levantando o vestido leve e florido que me cobria. apanhámos o último comboio e regressámos num dos primeiros. de mala na mão, aperto no peito e uma espécie de receio do desconhecido desejado que estava mesmo já a bater à porta. lutámos pela liberdade entre gritos e penumbras. num repente de dor aguda fez-se à vida. senti-o quente e húmido sobre o meu peito. pulsando vida.
a nossa vida.
mmm

segunda-feira, 1 de Junho de 2009

gente pequena

Dizia o poeta, que acho nem era muito chegado à gaiatada, que o melhor do mundo são as crianças. É. E bom mesmo é aquele bocadinho de gente pequena que vamos mantendo de saúde mesmo quando já somos gente grande. Aquele lado do disparate, dalguma inocência, de ter um gozo do caraças ao chupar um gelado de gelo ou ao inventar aquelas estórias fantásticas que viram vida de verdade.

Cresci filha única e fui ganhando irmãos com o correr dos anos. Coisas de coração. Além dos meus três rapazes há sempre um corropio de miúdos lá por casa e sobrelotando a carrinha, falando uns mais alto do que os outros num frenesim de quem tanto tem para contar que nem quer saber se é ou não ouvido.

Tropeçam em berlindes e em palavras, apertam-se em
abraços e em lutas, zangam-se, fazem cara feia e as pazes, dão mais abraços e prometem paz para o sempre que é já dali a bocado .

Vamos de barco até Almada para ver o Cristo-Rei bater as palmas, mas sempre chegamos depois da hora. Pelo caminho aproveitamos para contar alegrias, medos e truques de escrever cartas de amor em código, com sumo de limão e deitá-las na Praia de Santo Amaro ao cair da noite da próxima lua cheia.

Falamos de coisas sérias e obrigações. Pedimos humildade, educação, trabalho na escola e no pavilhão, respeito pelo próximo, cumprimento de regras e mais aquelas cenas todas que até nós sabemos são peso demais para quem ainda acredita que o mundo é lindo, ridondo e de todas as cores.

Ontem, no palco grande das Festas do Concelho de Oeiras, os miúdos do Centro Comunitário do Alto da Loba encheram-nos o coração. Crianças de diferentes nacionalidades apresentaram danças tradicionais dos vários países de origem. Africanos bailando e falando russo, brasileiros dançando o luso regadinho, moldavos rebolando num funaná a preceito e todos juntos, sambando, cantando, de mãos dadas pela amizade imensa que os une.

Às vezes, no fim do dia, não nos sobra quase nada mas acho já não seríamos capazes de viver longe desta algazarra, né mana? Eu chamo-lhe tempero. Tu chamas terapia. Há quem chame loucura ...

quinta-feira, 21 de Maio de 2009

de volta ...




quando os dias crescem e fica mais quentinho, parece até o futuro é mais grande e quase tudo tem solução.

a cantoria da passarada e o resmalhar dos eucaliptos. o cheiro das figueiras. as risadas e as lengalengas dos miúdos no regresso a casa. os mais velhos recolhidos nas sombras do parque jogando uril e contando parte. as paixões cegando a razão. a tijoleira aquecendo os pés nus e o entardecer sublime de quem não quer ir já para o amanhã.



mm

quarta-feira, 13 de Maio de 2009

antes soubesse ...



Sting - "Je ne sais pas"

Jacques Brel, 1958

terça-feira, 12 de Maio de 2009

Deixa-te ir ...

Sabes a ladeira dos Barronhos? Aquela cheia de armazéns e portões cinzentos que parece quase nunca abrem? Sobes, sobes, sobes, e lá no cimo de tudo, depois dos campos de milho verde, onde já nem os repolhos crescem, tens assim tipo uma fábrica de cenas de inventar. Podes até pensar que é alcool ou ganza ou até que pirei de vez ou fiquei com cabeça tonta de altitude, mas não é nada disso. Sentas-te fixe, assim meio deitado, fechas os olhos e começas a olhar pra dentro, mansinho como quem nem quer ver. Aí a cena começa. Ventania, passarada, nuvens desvairadas de encontro ao mar, o resmalhar dos arbustos e aquele cheiro bom de oregãos e rosmaninho. Ao longe ouves os jogos de bola, as cantilenas das miúdas na rua do coreto, o ralhar das mães e a reza do terço que começa. Adivinhas as carícias e os beijos escondidos, as promessas por cumprir e as solidões disfarçadas.

Deixa-te ir.
Nos sonhos, parece até o amor é de verdade.

quarta-feira, 6 de Maio de 2009

tenho frio

Sopra vento, sopra forte ...
Traz-me novas, luz, calor
... vem tu t
ambém.


asss

sábado, 25 de Abril de 2009

D. Revolução



Eram oito e pouco da manhã. O portão de ferro da entrada da escola não estava escancarado. A criançada não brincava no recreio da frente. Nem no de trás. A menina Clotilde avisava assim quase sorrateiramente todos os que iam chegando:

"- Vai pra casa piqueno que a D. Revolução chegou esta noite".

Também voltei. De caminho, fui espreitando os burros do vizinho Seromenho, a mercearia do Joaquim Guilherme, a venda da Bia e metendo conversa com o Manel dos Pincels que, empoleirado na sua velha escada de madeira caiava as varandinhas da Porta dos Quartos.

- Atão menina, o Senhor Professor caiu da cadeira ou foi a senhora dele que teve menino?

- Diz que a D. Revolução tá na escola ...
fui dizendo, enquanto amarinhava escadas acima, abrindo rasgão no engomado bibe branco e pintalgando as tranças já tão meio à banda.

A minha avó espreitou do postigo:

- E quem é que vem a ser essa da D. Revolução?
- Eu cá acho que deve ser ...

E nem fui a tempo de dizer "inspectora". A minha avó já bradava lá de cima que a magana que tinha acabado com bibe tão bem costurado bem se podia ir preparando para escrever vinte cinco linhas de "A bata da escola é branca de neve, sem nódoas nem buracos".

Depois, no meio do alvoroço do pessoal, das cantorias, dos soldados que sairam do quartel sem ser a marchar, do coro de "O povo unido jamais será vencido" a minha avó esqueceu-se do castigo e tratou de mandar chamar o Manel dos Pincels para vazar, limpar e caiar a cisterna, não fosse o diabo tecê-las, o tempo voltar pra trás e a família precisar dum lugar seguro para se esconder não sabia de quem.

Na folha de vinte e cinco linhas só escrevi:

Lagos, 25 de Abril de 1974

quinta-feira, 23 de Abril de 2009

afinal, quem ?

Chamaram-lhe Maria de Fátima e cresceu Fátinha. Atrás do sonho de vida melhor aterrou em Lisboa no princípio dos anos 90. Descobriu pouco depois que afinal não tinha vindo para o paraíso. A patroa não pagava nem fazia contrato, estava muito frio e a escola não aceitava estrangeiros não regularizados.

Penou nas filas do SEF e nunca chegou à sua vez. Fez o que continuam a fazer muitos imigrantes: inscreveu-se numa empresa de serviços com documentos mais ou menos emprestados por um conhecido, que dizia serem duma irmã que já tinha voltado para a terra. Apresentou-se como Georgina para trabalhar num hotel na linha do Estoril, poucos dias depois.

Parece a vida já lhe sorria. Gostavam dela no emprego, recebia gorjetas dos clientes, morava numa casa simpática com o companheiro e os dois filhos nascidos entretanto. Um dia a chefe chamou-a à recepção, alguém procurava por ela. Eram da polícia e vinham buscá-la. Por mais que explicasse que a Georgina não era ela, que os documentos que estavam na mala eram só emprestados, foi na mesma julgada e condenada a 4 anos por tráfico de droga.

Na cadeia foi conquistando a confiança de todos e com a ajuda de uma advogada oficiosa conseguiu ser ilibada de tráfico e condenada por utilização de documentos falsos. Saiu aliviada mas sabedora de todos os truques de como enganar o parceiro ou fazer seu o objecto alheio. Desesperada e sem emprego, envolveu-se e ao companheiro em burlas e gamanço e acabou por ser apanhada no SEF quando foi levantar documentos. O companheiro foi preso e ela expulsa do país.

Na terra só passou os dias necessários para visitar a família e arranjar passagem. Menos de uma semana depois aterrava em Lisboa como Edite. Apanhou os filhos na casa da amiga onde os tinha deixado, disse à patroa que tinha estado internada no hospital, alisou a cama que continuava desfeita, marcou a data de casamento para o mês seguinte e voltou à lida.

Actualmente marido e mulher trabalham, as crianças frequentam a escola oficial e aguardam que os cinco anos do período de expulsão chegue ao fim. Nesse dia, se tudo correr bem, talvez o Luís e o Zézinho deixem de ser filhos da Georgina, o pai deles se divorcie da Edite para casar com a Maria de Fátima e finalmente sejam uma família de verdade. E feliz para sempre, também.

terça-feira, 21 de Abril de 2009

_e_u_ _e_u_ _e_u_ _ _ nós.

segunda-feira, 20 de Abril de 2009

elas

Ao longo do dia de hoje fui-me lembrando de mulheres idosas que, por uma ou outra razão estão ligadas à minha infância em Lagos. A minha bisavó Dlim-Dlim, assim alcunhada por nos baloiçar sentados no seu pé direito e que há muito vivia no mundo da imaginação; a avó Aldegundes, mestra doceira algarvia sempre de mesa posta e porta entreaberta; a avó Naicinha, mulher rija da serra, alegre, cantadeira e conhecedora dos segredos do campo; a Ti Torres que morava atrás do cemitério e amanhava os braços e os pés torcidos, a Ti Estrudes do Ti Henrique que já não saia de casa e ficava na janela a perguntar as novidades e a coscuvilhar o mais que podia, a Ti Piedade quer-matar que aviava as pevides e as alcagoitas à porta do cinema, a D. Augusta parteira e mais o seu 4L pintado com tinta de parede, a Etelvina rua acima rua abaixo nos recados à D. Pepa, a senhora Adelina encostada à telefonia que debitava notícias do mar, a doce menina Otília e a ríspida D. Bibita onde todos os miúdos andaram na escola-paga, a Ti Bia da venda onde se vendiam os melhores pirolitos da Porta-dos-Quartos, a senhora Chica das bananas na Rua Direita, a senhora Virgínia da fruta na Praia da Batata e as avós todas que nos esperavam na volta da escola com pires de arroz-doce, ralhetes, recados e mandados mas principalmente com colos disponíveis e estórias tantas de contar e sonhar.

sexta-feira, 17 de Abril de 2009

amor ???

descer à terra. matar a rebeldia. calar. ouvir. acatar. aceitar. falar baixo. crescer. acordar. acalmar. parar. entristar. preocupar. nunca ir. não brincar. interdito sonhar.

e apodrecer, não?


lll

quinta-feira, 16 de Abril de 2009

não há palavras ...

disseram foi pró céu e mora nos nossos corações.

na ponta do sal parece o céu é maior e o silêncio do marulhar abranda o coração.

afinal era mentira.

nem rasto.
só dôr.

revolta também.

terça-feira, 14 de Abril de 2009

Dizer o quê?



Há apenas umas horas o Santiago cantava o "patinho" e batia palmas de alegria. Atirava beijinhos, gatinhava a 100 à hora e pulava de colo em colo. Há apenas umas horas o Nelson e a Patrícia eram uns jovens pais orgulhosos das gracinhas do seu rebento. Há apenas umas horas o sol brilhava entre os pingos de chuva e um arco-íris iluminava o cinzento escuro do céu.

Tudo se apagou. Escureceu de breu.
De nada serve dar murros nas paredes, soltar palavrões, tão pouco chorar.
Reclamar? Implorar? A quem?
Afinal, quem mesmo é que manda na vida?

terça-feira, 7 de Abril de 2009

ASSOMADA ki ta rabenta

Desde sábado que as nossas princesas estão a participar no Torneio Internacional de Andebol do Seixal nos escalões de infantis, iniciadas e juvenis.

Durante a semana vamos lá ao final do dia levar e receber os mimos, ouvir as queixas,as saudades e as novidades de cada dia.


Aqui que elas não escutam até se pode dizer: - São tão giras!!!

E o bom que é sabê-las tão bem entregues ao cuidado das companheiras mais velhas, juníores ainda, mas com grande sentido de responsabilidade técnico e humano. Orientando os jogos, tratando as que se magoam, ralhando quando preciso, zelando para que se alimentem e descansem devidamente, que cumpram as regras e que aproveitem a oportunidade para se divirtirem e fazerem novos amigos.

Dá, Leila, Sofia, Célia, Susy e Edna, brigadão meninas.
Elas dizem que vocês são assim um bocadinho más.
É só porque estão a desempenhar bem o vosso papel.

Miriam, Sónia, Anissa, Jessica, Márcia, Marta, Vânia, Beti, Miriam, Sara, Débora, Miriam, Erika, Bebé, Andrea, Luísa, Odete, Jessica, Cristiana, Tchu, Solange, Tâmara, Claúdia, Liliana, Vanessa, Tânia, Sílvia, Maria José, Aninhas, Méri, Vânia, Mica e Carla, divirtam-se muito, portem-se bem e marquem muitos golos para a nossa Assomada.


Foto de Miguel Nunes, Jornal "A Bola"

domingo, 5 de Abril de 2009

Ganho vida nos abraços calorosos de cada dia, nas mãos que palmam uma na outra com fervor, nas gargalhadas que soltamos e no entusiasmo com que acreditamos no que queremos seja.

Sei que continuo à espera. Não sei é bem de quê.

Ou saberei?

neblinas ...
ggg
ggg
gggggggggggggggggggggg
gggggggg
ggggggggggggggggggggggg
g
vem.
 
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